Pesquisadores do Centro apresentaram estudos na Universidade Nacional da Colômbia e na Universidade de Antióquia e visitaram territórios populares que passaram por intervenções públicas.
O Centro de Estudos da Favela (CEFAVELA-Cepid/Fapesp) cumpriu em Medellín, na Colômbia, uma agenda de intercâmbio de conhecimento sobre favelas e assentamentos semelhantes na América Latina. Entre os dias 14 e 18 de setembro de 2026, as pesquisadoras de pós-doutorado Ana Gabriela Akaishi, Lara Isa Costa Ferreira e Twane Maria Cordeiro Xavier e o pesquisador associado Leonardo Rodrigues Pitas Piqui participaram de seminários e visitas de campo por meio de vínculos com duas instituições públicas, a Universidade Nacional da Colômbia (UNAL) e a Universidade de Antióquia (UdeA). Os quatro apresentaram trabalhos vinculados a projetos que coordenam no Centro e também estudos coordenados por outros pesquisadores do CEFAVELA.
A agenda está especialmente ligada à Bolsa Estágio de Pesquisa no Exterior (BEPE) de Ana Gabriela Akaishi, que realiza estágio pós-doutoral na UNAL sob supervisão da professora Elizabeth Arboleda Guzmán.
Seminário na Universidade Nacional da Colômbia
No dia 16 de setembro, na Escuela del Hábitat da Facultad de Arquitectura da UNAL, foi realizado o Seminario-Taller – Agenda para la Gestión del Riesgo: Perspectivas desde las Ciencias Sociales y el Urbanismo, planejado para compartilhar as pesquisas do Centro. Foram cerca de oito apresentações, divididas em dois blocos. O seminário foi gravado e está disponível no Youtube.
Ana Gabriela Akaishi abriu o encontro apresentando o CEFAVELA: sua formação institucional, suas linhas de pesquisa e os projetos de pesquisa, inovação e difusão em curso. Também compartilhou publicações do Centro, como os livros Urbanização de favelas: abordagens e aprendizados e Planos Comunitários de Redução de Risco e Adaptação Climática: Coprodução e Resiliência Local, além das Notas de Pesquisa. Em seguida, apresentou “Panorama de la realidad de las favelas en Brasil: orígenes y situación actual”, que contextualizou o quadro contemporâneo das favelas brasileiras.
No primeiro bloco, Lara Ferreira apresentou “Los programas de urbanización de favelas en Brasil: evolución histórica y situación actual“. Ela traçou um panorama histórico dos programas públicos de urbanização de favelas, que ajuda a entender o momento atual do programa federal em execução, o Periferia Viva. Foram abordados programas e projetos que exemplificam diferentes arranjos e formas de intervenção em contextos variados de favelas no Brasil, com atenção especial à Região Metropolitana de São Paulo.
Leonardo Piqui apresentou “La vivienda de favela vista desde dentro: interpretación de los riesgos en la escala intradomiciliaria“, com resultados preliminares da pesquisa “Autoprodução do espaço de moradia nos territórios de favela“. Ele defendeu que a autoconstrução da moradia em favelas passa por transformações intensas, o que exige pesquisas atuais e contínuas. Defendeu também que a escala voltada ao interior da moradia é fundamental para compreender suas condições de habitabilidade e a precariedade persistente que a marca. Segundo ele, uma leitura da moradia de favela requer um olhar integrado, que considere produção, tamanho, aspectos construtivos, sociais, climáticos e de saúde, entre outros fatores.
Twane Xavier encerrou o primeiro bloco com “Análisis y producción de datos sobre favelas“, em que apresentou dois projetos de inovação do Centro. O primeiro a ser destacado foi o projeto Revelando Favelas, que desenvolve um marco metodológico para identificar e caracterizar favelas por meio de dados alternativos de alta resolução e inteligência artificial explicável, gerando classificações interpretáveis. Seu principal resultado será incorporar essa metodologia ao processo de identificação de territórios de favela do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), também parceiro do CEFAVELA, na preparação do próximo Censo Demográfico.
O segundo foi o projeto MetaFavela, uma plataforma de metadados que centraliza, sistematiza, compartilha e dá visibilidade à produção de dados geoespaciais sobre as favelas brasileiras. Reúne informações produzidas por moradores e trabalhadores desses territórios, grupos de pesquisa, organizações não governamentais e instituições governamentais. A plataforma se destaca como infraestrutura para a justiça de dados, ao promover equidade informacional, fortalecer a autonomia de produtores locais de dados e democratizar o acesso ao conhecimento.
No segundo bloco do seminário, Ana Akaishi apresentou “Aguas urbanas e infraestructuras en las favelas: experiencias brasileñas“. A pesquisa desenvolve uma metodologia para avaliar a qualidade ambiental de intervenções em córregos urbanos e sua relação com saneamento, áreas verdes, recuperação de margens e espaços públicos. A metodologia é aplicada a estudos de caso comparáveis e permite construir indicadores para avaliar o cumprimento de metas. O trabalho apresentou um sistema descritivo e analítico de infraestruturas urbano-ambientais em favelas, em desenvolvimento pelo Centro e vinculado ao seu projeto de pós-doutorado.
Twane Xavier apresentou “Exposición al calor en las favelas: a partir del análisis de imágenes satelitales“. O estudo analisou imagens de satélite de 2024 e 2025 e identificou, em favelas de São Paulo, temperaturas de superfície (como telhados, ruas e solo) até 15 °C acima das de bairros vizinhos. Uma nova pesquisa coleta dados de temperatura em campo para medir a concordância entre as temperaturas de superfície obtidas pelo Landsat e as medições locais, e para identificar os fatores que explicam as diferenças. A pesquisa é desenvolvida por Rohit Juneja, sob orientação dos professores Flávia Feitosa e Victor Nascimento, pesquisadores do CEFAVELA.
Ana Akaishi concluiu o seminário com “La producción comunitaria de conocimientos sobre los riesgos“, com base em ações coordenadas pela professora Luciana Ferrara, pesquisadora do CEFAVELA. A apresentação analisou como a crise climática aprofunda desigualdades socioambientais nas periferias urbanas e apresentou os Planos Comunitários de Redução de Riscos e Adaptação Climática (PCRA), criados pelo governo federal em 2023. Os planos são uma estratégia inovadora, baseada na coprodução de conhecimento entre comunidades, equipes técnicas e poder público. A pesquisa destaca o protagonismo comunitário na leitura do território, na identificação de riscos e na construção de soluções de adaptação. Mostra ainda como participação social, saberes populares e governança territorial contribuem para políticas públicas de adaptação climática mais eficazes e equitativas.
Segundo os participantes do CEFAVELA no seminário, as rodadas de perguntas e contribuições realizadas entre os blocos foram muito oportunas e frutíferas para a troca de conhecimento com pesquisadores colombianos.
Seminário na Universidade de Antióquia
No dia 17 de setembro, as atividades seguiram na UdeA, com o Seminario investigativo – Fenómenos climáticos y Justicia Socioambiental en los contextos urbanos latinoamericanos: un diálogo comparativo entre Colombia y Brasil. O evento foi organizado por Ana Akaishi e pelo professor César Augusto González (UdeA), coordenador do Grupo de Investigación Medio Ambiente y Sociedad (MASO), e contou com a presença da professora Liliana Sanchez Mazo.
O primeiro bloco do evento, “Trayectorias urbanas, autoconstrucción y organización social”, teve a seguinte programação:
- Apertura y presentación MASO–CEFAVELA, com representantes de ambas as equipes;
- “Panorama de la realidad de las favelas en Brasil: orígenes y situación actual”, com Ana Gabriela Akaishi (Brasil);
- “Los programas de urbanización de favelas en Brasil: evolución histórica y situación actual”, com Lara Ferreira (Brasil);
- “Geohistoria de la ciudad ecosocial”, com César González (Colômbia);
- “La realidad de las viviendas autoconstruidas en favelas: análisis y datos desde su interior”, com Leonardo Piqui (Brasil);
- “Vínculo social y acción colectiva”, com Andrés Roso (Colômbia);
- “Análisis y producción de datos sobre favelas”, com Twane Xavier (Brasil);
- Conversación con el público
O segundo bloco, “Aguas urbanas, riesgos y justicia socioambiental”, teve a seguinte programação:
- “Aguas urbanas e infraestructuras en las favelas: experiencias brasileñas”, com Ana Gabriela Akaishi (Brasil);
- “Plan Maestro Corazón Ecológico: SUDS, comunidad y justicia socioambiental desde los 15 parques de Conquistadores”, com Ana María Navia (Colômbia);
- “Exposición al calor en las favelas: a partir del análisis de imágenes satelitales”, com Twane Xavier (Brasil);
- “Márgenes en movimiento. Disputas por el derecho a la ciudad en el marco de la gestión del riesgo de desastres en la zona nororiental de Medellín (2004–2025)”, com Jhoan Alexis Holguín Ramírez, Juan José Franco Ramírez e David Ariel Galvis (Colômbia);
- “La producción comunitaria de conocimientos sobre los riesgos”, com Ana Gabriela Akaishi (Brasil)
- Conversación con el público y cierre conjunto
Vivências em campo
Ao longo da semana, em complemento aos seminários, os pesquisadores realizaram vivências em campo em comunas populares de Medellín que passaram por intervenções públicas de melhoria, semelhantes às ações de urbanização de favelas no Brasil. Com o apoio do pesquisador da UdeA, Christian Alvaréz, foram visitados territórios das comunas 1 (Santo Domingo Savio e Popular), 2 (Quebrada Juan Bobo e La Herrera), 7 (Robledo) e 13.
Entre os destaques da experiência estiveram a observação das intervenções de infraestrutura em rios e córregos e da criação de sistemas de espaços verdes e livres, associados à provisão habitacional em edifícios de habitação de interesse social. Os pesquisadores conheceram também equipamentos comunitários, como as Unidades de Vida Articulada (UVA), espaços públicos abertos, em áreas periféricas, onde há reservatórios de água, com atividades de lazer, esporte, cultura e outros. Outro ponto de destaque foi o Metrocable de Medellín, sistema de teleférico que funciona como solução de transporte para comunas situadas em áreas de declividade extrema.
Ana Akaishi e Leonardo Piqui também entraram em algumas moradias, para observar como as intervenções públicas as consideraram em seus planos e projetos.
Internacionalização como premissa
A missão em Medellín é uma iniciativa de internacionalização, premissa do CEFAVELA, orientada pela Coordenação de Projetos Internacionais, sob responsabilidade de Camila Pereira Saraiva.
A troca de conhecimentos entre países latino-americanos é fundamental para enfrentar desafios que as cidades da região compartilham: a informalidade urbana, a precariedade habitacional, os riscos associados a águas e encostas e os efeitos da crise climática nos territórios populares. Comparar trajetórias, políticas e soluções ajuda a reconhecer o que é próprio de cada contexto e o que pode ser aprendido de um país para o outro. A experiência também contribui para a formação dos pesquisadores do CEFAVELA, que passam a ter uma visão mais ampla das favelas e dos assentamentos semelhantes em outros países. Com isso, o Centro fortalece redes de cooperação e amplia o alcance e a qualidade de sua produção científica.




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(Texto produzido por Ana Gabriela Akaishi, Lara Isa Costa Ferreira, Twane Maria Cordeiro Xavier e Leonardo Rodrigues Pitas Piqui)
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Sobre o CEFAVELA
Com sede na Universidade Federal do ABC (UFABC), o CEFAVELA é um Centro de Pesquisa, Inovação e Difusão (CEPID) financiado pela FAPESP e comprometido com o desenvolvimento de pesquisas, formação de recursos humanos, transferência de tecnologia e difusão de conhecimento para a sociedade sobre as favelas, em articulação com diversas instituições, movimentos e organizações sediadas e comprometidas com a agenda territorial das favelas. O CEFAVELA busca, por meio de uma abordagem interdisciplinar e multiescalar, gerar, articular e disseminar conhecimentos para ampliar a compreensão das dinâmicas territoriais das favelas e as formas de reprodução de desigualdades espaciais, bem como dos limites e potenciais de programas e políticas de melhoria desses territórios no contexto urbano contemporâneo.
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