Nota de Pesquisa do CEFAVELA identifica, correlaciona e sintetiza os principais fatores determinantes dessas desigualdades, com o objetivo de contribuir para futuras pesquisas e formulação de políticas públicas mais eficazes.
A saúde precária pode ser simultaneamente consequência e fator propulsor da pobreza, da exclusão social, da desvantagem educacional, da degradação ambiental e da redução das oportunidades de mobilidade social. São dinâmicas que se retroalimentam e ajudam a explicar a persistência das desigualdades em saúde entre famílias, comunidades e gerações. Esta é uma das principais conclusões trazidas pela quinta Nota de Pesquisa do Centro de Estudos da Favela (CEFAVELA-Cepid/Fapesp), “Determinants, Pathways and Health Outcomes in Informal Settlements: Towards an Integrated Framework”, resultado de pesquisa conduzida por Edmundo Werna, pesquisador visitante no CEFAVELA pela Oxford Brookes University, do Reino Unido, com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).
Lançada no dia 11 de setembro, em palestra realizada no campus São Bernardo do Campo da Universidade Federal do ABC (UFABC), a Nota de Pesquisa também destaca a persistência de uma dupla e, cada vez mais, múltipla carga de doenças, na qual enfermidades infecciosas coexistem com as não transmissíveis, as materno-infantis, desafios de saúde mental e lesões. Essas cargas frequentemente interagem e se reforçam mutuamente. A análise sobre elementos relacionados às questões de saúde mental e também de mudança climática, que estão aparecendo com mais frequência nas pesquisas sobre saúde em territórios precários, é um destaque da Nota.
“Compreender as interações constitui um dos principais desafios para a pesquisa e a formulação de políticas públicas”, aponta o pesquisador. A partir da revisão de um amplo estudo de publicações científicas, a Nota de Pesquisa identifica os principais determinantes da saúde em diversas áreas, interrelacionando-os, e examina o conjunto dos impactos na saúde.
“A Nota de Pesquisa procura superar análises que partem de determinantes isolados, percursos únicos ou categorias independentes de doenças. Esses determinantes estão interligados, interagem de forma complexa, podendo ser, inclusive, retroalimentados”, explica.
Um exemplo está na renda precária. Essa limitação pode restringir o acesso à habitação adequada. Por sua vez, a moradia em condições precárias pode aumentar a exposição a riscos ambientais e doenças infecciosas. Tais impactos na saúde podem levar à redução da renda familiar por meio da perda de oportunidades de emprego, redução da produtividade, aumento das responsabilidades de cuidado e das despesas com tratamentos médicos, retroalimentando o problema da renda, fechando o ciclo. Mesmo doenças temporárias podem gerar significativa desorganização econômica. As famílias podem ser forçadas a reduzir o consumo de alimentos, adiar a busca por cuidados de saúde, retirar crianças da escola ou esgotar ativos produtivos.
As condições precárias de vida contribuem para desfechos adversos em saúde, mas a saúde precária também pode reforçar e reproduzir as próprias condições que geram vulnerabilidade inicialmente. “Esses ciclos de retroalimentação ajudam a explicar por que as desigualdades em saúde frequentemente persistem ao longo do tempo e entre gerações, mesmo quando são introduzidas melhorias incrementais”, aponta Werna na Nota de Pesquisa.
Violência e mudança climática: adicionais de estresse que complicam o quadro
Ganha destaque na revisão feita por Werna o fato de que pesquisas iniciais sobre saúde urbana apontavam a persistência de uma dupla carga de enfermidades, na qual doenças infecciosas coexistiam com doenças não transmissíveis. Os estudos, em conjunto, mostraram que infecções recorrentes podem contribuir para uma vulnerabilidade fisiológica de longo prazo, enquanto doenças crônicas podem aumentar a suscetibilidade a doenças infecciosas e agravar os desfechos em saúde. Essa dupla carga de doenças é agravada por outros fatores que têm sido pesquisados mais recentemente, como o estresse relacionado à violência e aos problemas relacionados ao meio ambiente, entre outros.
A revisão de publicações científicas feita por Werna mostra também um número crescente de relatos sobre mecanismos de retroalimentação envolvendo questões de saúde mental e vulnerabilidade social. Estresse crônico, insegurança, violência, incerteza e exposição repetida a riscos ambientais podem contribuir para ansiedade, depressão e sofrimento psicossocial. “São condições que podem afetar o desempenho educacional, a estabilidade no emprego, a participação social e a utilização dos serviços de saúde, reforçando, assim, formas mais amplas de exclusão social e econômica”, ressalta ele na Nota de Pesquisa.
Outro importante avanço da pesquisa feita por Werna está na identificação de estudos que apontam formas de resiliência e adaptação que podem mitigar as condições adversas. Iniciativas comunitárias, organizações de bairro e redes de ajuda mútua ilustram como os moradores frequentemente mitigam riscos apesar do apoio formal limitado. “Essas iniciativas não substituem os investimentos públicos ou as reformas estruturais, mas demonstram que os assentamentos informais são sistemas sociais dinâmicos, e não espaços passivos de vulnerabilidade, e essas iniciativas devem ser consideradas na formulação de políticas públicas”, aconselha.
Para ler mais sobre determinantes em saúde e suas correlações, bem como sobre recomendações para políticas públicas, acesse a Nota de Pesquisa “Determinants, Pathways and Health Outcomes in Informal Settlements: Towards an Integrated Framework” no canal de Publicações do site do CEFAVELA ou clique aqui.
(Crédito para foto do destaque: ASCOM/Prefeitura de São Paulo)
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Sobre o CEFAVELA
Com sede na Universidade Federal do ABC (UFABC), o CEFAVELA é um Centro de Pesquisa, Inovação e Difusão (CEPID) financiado pela FAPESP e comprometido com o desenvolvimento de pesquisas, formação de recursos humanos, transferência de tecnologia e difusão de conhecimento para a sociedade sobre as favelas, em articulação com diversas instituições, movimentos e organizações sediadas e comprometidas com a agenda territorial das favelas. O CEFAVELA busca, por meio de uma abordagem interdisciplinar e multiescalar, gerar, articular e disseminar conhecimentos para ampliar a compreensão das dinâmicas territoriais das favelas e as formas de reprodução de desigualdades espaciais, bem como dos limites e potenciais de programas e políticas de melhoria desses territórios no contexto urbano contemporâneo.
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