Foram 11 semanas de aulas e atividades com a primeira turma.
A segunda turma se encerrou dia 9 de dezembro.
A primeira turma do curso de extensão “Transformação do território das favelas e periferias brasileiras”, oferecido gratuitamente pelo Centro de Estudos da Favela (CEFAVELA-Cepid/Fapesp) e pela Secretaria Nacional de Periferias (SNP), do Ministério das Cidades, acaba de concluir as aulas. Realizadas de forma online entre 25 de agosto e 9 de dezembro, elas somaram 88 horas de aulas e atividades para introduzir o debate sobre as dinâmicas do território e as possibilidades das políticas públicas para intervenção nas favelas e periferias.
O perfil do público participante foi de integrantes de assessorias técnicas; pessoas que atuam em ONGs; servidores públicos; e lideranças de comunidades urbanas, favelas e periferias, participantes do Prêmio Periferia Viva. Foram disponibilizadas 200 vagas, todas preenchidas. As aulas foram aplicadas em oito horas semanais: duas horas de forma síncrona, ao vivo, e as outras seis horas foram compostas de estudos individuais e atividades. O curso procurou abordar criticamente os estudos urbanos sobre favelas e as políticas de transformação das favelas em periferias brasileiras.
“O curso foi muito importante para conectar o CEFAVELA a um conjunto de lideranças comunitárias, da rede Nós Periféricos, de servidores públicos que atuam com temáticas territoriais e que estão lidando na ponta com a organização de favelas, com as políticas de mitigação de riscos e assessorias técnicas que atuam nesses territórios”, afirma afirma André Pasti, professor da Universidade Federal do ABC (UFABC) e pesquisador do CEFAVELA que coordena o curso.
“Nosso curso chegou a todas as unidades federativas do Brasil, e tivemos estudantes de todas as realidades periféricas e faveladas do País que puderam dialogar e refletir sobre suas experiências, desafios, aprendizados e estratégias mobilizadas na transformação dos territórios”, prossegue ele. Também tivemos uma troca significativa entre pesquisadores, professores das universidades que estão pensando criticamente sobre esses processos e as pessoas que estão na Secretaria Nacional de Periferias propondo políticas de transformação dos territórios das favelas em diálogo com lideranças comunitárias, assessores e assessoras técnicas e pessoas que estão atuando como servidoras públicas, diálogo este que pretendemos manter”, completa o pesquisador.
O que disseram os participantes

Ativista social no coletivo União por Moradia Popular de Ponta Grossa e região (UMP-PG), no Paraná, e na Rede Negra de Planejamento Urbano e Regional, Gabriela de Lima Manique Barreto classificou a participação como uma experiência pessoal transformadora. “O curso me ajudou a sistematizar reflexões que já vinham se desenhando na minha trajetória como arquiteta e urbanista, pesquisadora e ativista por justiça territorial. As aulas e leituras aprofundaram meu olhar sobre o papel das favelas e comunidades urbanas como parte constituinte da cidade e como territórios de potência, resistência e invenção cotidiana, para além da leitura de ‘espaço problema’”, disse ela, que é pesquisadora em Gestão do Território.
Segundo Gabriela, as discussões sobre urbanização periférica, justiça ambiental e planejamento participativo dialogaram diretamente com o trabalho que desenvolve junto ao coletivo e às mulheres negras que constroem, no cotidiano, outras formas de cidadania. “As atividades me ajudaram não só a reconhecer e nomear as desigualdades que estruturam a cidade, mas também as estratégias e saberes que emergem dos territórios populares”, comentou
Gabriela também destacou o cuidado com a forma como o curso foi oferecido. “O material de estudo foi pensado para acolher as diferentes realidades do público participante, com textos disponíveis em áudio e em formato de leitura para celular — sem, em nenhum momento, reduzir o rigor teórico e a densidade crítica do conteúdo”, apontou. “Essa escolha demonstra um compromisso real com a acessibilidade e com a democratização do conhecimento, servindo de exemplo para outros projetos que busquem dialogar com as comunidades”, completou.
Para ela, o curso cumpriu o objetivo “de articular teoria e prática, aproximando universidade, os coletivos e Estado, a partir de uma pedagogia crítica, territorial e comprometida com a transformação social”, afirmação que se coaduna com os objetivos do CEFAVELA e da Secretaria Nacional de Periferia com a iniciativa. Como sugestão de aprimoramento para futuras edições, ela indicou ideia de ampliar os momentos de troca entre os participantes, pois a diversidade de experiências entre os integrantes das diferentes representações sociais é uma das maiores riquezas do curso. “Saio dessa experiência com mais repertório teórico, político e afetivo para seguir lutando por cidades mais justas e inclusivas”, concluiu.

Anderson Gomes Coutinho, empreendedor social do Instituto Juventude Criativa, considerou o curso um ponto de virada. “Foi uma imensa alegria ver a universidade federal se abrir de forma tão potente e real para a periferia. É transformador estar neste espaço onde o conhecimento acadêmico da UFABC e a sabedoria da rua, o protagonismo dos territórios e a nossa vivência periférica, se encontram para construir soluções. Não somos apenas ‘objeto’ de estudo, somos protagonistas”, ressaltou.
”Essa parceria com a Secretaria Nacional de Periferias é a prova de que é possível e urgente unir a pesquisa séria com a demanda real do povo. Saio do curso com um senso de capacitação imbatível e a certeza de que essa conexão está moldando um futuro de políticas públicas mais justas e eficazes”, acrescentou ele. “Recomendo de olhos fechados a todos que acreditam na favela como potência e na união da academia com a base para a verdadeira transformação social e ambiental”, disse.

Aline Emanuelle de Oliveira Pedrosa Melo, assessora técnica na Diretoria Executiva de Inovação Urbana, Comunidades Urbanas e Urbanismo Social do Instituto de Pesquisa, Planejamento e Licenciamento Urbano e Ambiental de Maceió (Iplam), considerou a experiência muito significativa, tanto para o aprimoramento técnico quanto para o fortalecimento da visão de cidade que buscam construir no Iplam. “Pude perceber o quanto o conteúdo dialoga diretamente com os desafios e práticas do nosso trabalho nos territórios, especialmente nas grotas de Maceió”, contou.
Assim como Gabriela, ela também elogiou a proposta pedagógica, que considerou extremamente rica, articulando teoria, dados e experiências práticas de transformação territorial. “As aulas trouxeram reflexões profundas sobre as dinâmicas urbanas, o papel do Estado e, principalmente, a importância da participação popular na construção de políticas públicas mais justas e eficazes”, analisou.
Aline também apontou a qualidade dos professores como um dos grandes destaques do curso. “São profissionais comprometidos, com vivências concretas e olhares diversos sobre o território. Cada aula reforçou o valor da escuta e do reconhecimento das potências existentes nas favelas e periferias brasileiras”, comentou.
Como ponto de aprimoramento, ela sugeriu que o curso tenha uma carga horária maior, pois os temas abordados são amplos e exigem mais tempo para aprofundamento e troca entre os participantes. “Também seria interessante criar espaços para que os integrantes conhecessem melhor as iniciativas uns dos outros, talvez com atividades em que os trabalhos finais fossem voltados à análise ou colaboração entre os projetos apresentados pelos próprios colegas. Isso fortaleceria ainda mais a rede e o aprendizado coletivo”, disse ela, sugestão indicada também por Gabriela.
“No geral, o curso representa uma contribuição essencial para quem atua na interface entre urbanismo, políticas públicas e transformação social. Saio com novas referências, conexões e inspiração para seguir contribuindo com o fortalecimento das comunidades urbanas e a construção de uma Maceió mais humana e inclusiva”, finalizou.

Sobre o curso
O curso “Transformação do território das favelas e periferias brasileiras” tem cinco módulos. O primeiro, “Urbanização Brasileira, Favelas e Territórios Periféricos”, procura abarcar a própria periferização, a lógica de urbanização no Brasil, a formação das favelas e a dimensão territorial. O segundo, “Como conhecer melhor nossas periferias?”, trabalha sobre o tema do acesso a dados das favelas, tanto na perspectiva dos dados oficiais quanto da produção de dados pelas próprias favelas. Neste módulo, além de iniciativas de geração cidadã de dados, será apresentado o Mapa das Periferias, uma plataforma do Ministério das Cidades para reunir iniciativas das periferias brasileiras.
O módulo “Favela: dinâmicas territoriais e os paradigmas da ausência e potência”, o terceiro do curso, discute as dinâmicas ambientais e territoriais das favelas, alinhando a perspectiva da ausência, no sentido de reconhecer as precariedades, com a do reconhecimento das potências da favela. Uma das temáticas será o programa Periferia Sem Risco, da Secretaria Nacional de Periferias. No quarto módulo, “Transformação e urbanização de favelas”, o conteúdo será focado em políticas públicas para urbanização de favelas, apresentado sua trajetória e desafios e abordando o PAC Periferia Viva, política em andamento. O quinto e último módulo, “Participação popular na transformação de territórios”, trará metodologias para participação popular cujo objetivo é a transformação e cogestão dos territórios, e discutirá desafios e possibilidades da mobilização comunitária nas favelas.
A realização do curso é resultado de uma parceria do CEFAVELA com a Secretaria Nacional de Periferias do Ministério das Cidades. O curso é apoiado pela UFABC e pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). Guilherme Simões, secretário Nacional de Periferias, foi um dos professores do curso. Integraram, ainda, o corpo docente profissionais que são referência no tema: Rosana Denaldi (UFABC/vice-diretora do CEFAVELA); Patricia Maria de Jesus (UFABC); Talita Stael Costa (Secretaria Nacional de Periferias); Gilberto Vieira (DataLabe, JararacaLab/PUC-PR e Observatório das Favelas); Flávia Feitosa (UFABC e CEFAVELA); Fernando Nogueira (UFABC e Secretaria Nacional de Periferias); Rodolfo Moura (Secretaria Nacional de Periferias); Luciana Ferrara (UFABC e CEFAVELA); Flávio Tavares (Secretaria Nacional de Periferias); Natasha Mendes Gabriel (Instituto Elos e CEFAVELA/UFABC), Alan Brum Pinheiro (Instituto Raízes em Movimento e IPPUR/UFRJ), além de André Pasti (UFABC e CEFAVELA).
Saiba mais sobre os cursos oferecidos pelo CEFAVELA no canal Cursos do site da instituição (https://cefavela.ufabc.edu.br/cursos/) e nas redes sociais (https://www.instagram.com/cefavela.ufabc e https://www.linkedin.com/company/cefavela/).
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Sobre o CEFAVELA
Com sede na Universidade Federal do ABC (UFABC), o CEFAVELA é um Centro de Pesquisa, Inovação e Difusão (CEPID) financiado pela FAPESP e comprometido com o desenvolvimento de pesquisas, formação de recursos humanos, transferência de tecnologia e difusão de conhecimento para a sociedade sobre as favelas, em articulação com diversas instituições, movimentos e organizações sediadas e comprometidas com a agenda territorial das favelas. O CEFAVELA busca, por meio de uma abordagem interdisciplinar e multiescalar, gerar, articular e disseminar conhecimentos para ampliar a compreensão das dinâmicas territoriais das favelas e as formas de reprodução de desigualdades espaciais, bem como dos limites e potenciais de programas e políticas de melhoria desses territórios no contexto urbano contemporâneo.
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